04 de abril de 2018 às 18:32

Morte de mais de 200 golfinhos em baía do Rio assusta pesquisadores

Alguma coisa assustadora estava acontecendo nas águas azuis da Baía de Sepetiba, um movimentado porto bem próximo do Rio de Janeiro. Desde o final do ano passado, pescadores vinham encontrando carcaças de golfinhos, emaciadas e marcadas por cicatrizes, fl

Alguma coisa assustadora estava acontecendo nas águas azuis da Baía de Sepetiba, um movimentado porto bem próximo do Rio de Janeiro. Desde o final do ano passado, pescadores vinham encontrando carcaças de golfinhos, emaciadas e marcadas por cicatrizes, flutuando na superfície do mar â?”às vezes até cinco delas em um só dia.

De lá para cá, cientistas descobriram mais de 200 carcaças de golfinhos da Guiana (Sotalia guianensis), o que representa cerca de um quarto daquela que era a maior concentração mundial de animais da espécie. O número de mortes, causadas por falhas respiratórias e no sistema nervoso associadas a um vírus, parece ter diminuído, mas os cientistas ainda estão trabalhando para desvendar o mistério que as cerca.

Como é que um vírus que normalmente deveria ter causado apenas um punhado de vítimas terminou matando centenas de golfinhos? E será que parte da resposta, questionam cientistas e moradores locais, não estaria na baía mesma, que a um só tempo simboliza o poderio econômico do Brasil e um presságio de risco ambiental?

Os golfinhos são "sentinelas", disse Mariana Alonso, bióloga do Instituto de Biofísica da Universidade do Rio de Janeiro, uma das diversas organizações que estão trabalhando para compreender a epidemia. "Quando há algo de errado com eles, isso indica que todo o ecossistema está comprometido".

No passado uma sonolenta região pesqueira, com praias de areia branca e um arquipélago de minúsculas ilhas cônicas, a baía de Sepetiba, 65 quilômetros a oeste do centro do Rio de Janeiro, se tornou um dos principais locais para as exportações brasileiras, nos últimos 25 anos. Em 2017, 39 milhões de toneladas de minério de ferro e outras commodities foram embarcados lá.

Os barcos pesqueiros de madeira que circulam pela baía agora o fazem ziguezagueando entre grandes cargueiros lotados de ferro e aço. Ainda que pessoas continuem a nadar em suas águas, quatro portos e uma constelação de instalações químicas, siderúrgicas e fabris surgiram na região. A Vale, uma das maiores produtoras mundiais de minério de ferro, ocupa um novo terminal em um antigo porto pesqueiro na ilha de Guaíba, ali perto.

"Quando eu era criança, havia búfalos nas fazendas em volta da minha aldeia, e plantávamos maçãs e cocos", disse Cleyton Ferreira Figueiredo, 28, que trabalha como caixa em uma loja de conveniência e, apesar da nostalgia, vê vantagens no desenvolvimento: "Agora tudo é mais urbano, com escolas e outras instalações. Há mais empregos e só preciso de 15 minutos para chegar em casa quando saio do trabalho".

A baía de Sepetiba ocupa uma porção estratégica da costa, próxima aos estados mais desenvolvidos do Brasil: São Paulo, o polo industrial; Rio de Janeiro, o polo petroleiro; e Minas Gerais, o polo da produção de ferro. Cerca de 22 mil operários trabalham em fábricas de empresas como a Gerdau, Ternium e Rolls-Royce, no distrito industrial de Santa Cruz, ao lado da área portuária. A Marinha brasileira tem um terminal em construção na região que em breve servirá como base para submarinos nucleares.

"O número de indústrias e empreendimentos na costa da baía de Sepetiba vem crescendo exponencialmente nos últimos anos", disse Alonso. "O que isso gera é uma concentração maior de poluentes no piso oceânico e na cadeia alimentar".

Cientistas atribuíram a onda de mortes de golfinhos ao morbillivirus, um vírus de transmissão aérea que causa sarampo em seres humanos. Eles agora estão tentando compreender como os golfinhos se tornaram tão vulneráveis ao vírus, e estão estudando o efeito da poluição e da degradação ambiental. 

Os efeitos do vírus â?”erupções cutâneas, febre, infecção respiratória, desorientaçãoâ?” apontam para mortes muito dolorosas. Golfinhos moribundos foram vistos nadando de lado, e sozinhos. Algumas carcaças apresentavam feias deformações, e os animais estavam sangrando pelos olhos. Foram reportados surtos da doença entre golfinhos em outras partes do planeta, mas este é o primeiro registrado entre animais da espécie no Atlântico Sul.

"A realidade é que a morte em massa causada pelo morbillivirus é só a ponta do icerbeg", disse Leonardo Flach, coordenador científico do Grey Dolphin Institute, uma organização conservacionista envolvida na investigação sobre as causas da doença.

O golfinho da Guiana, uma espécie encontrada da América Central ao sul do Brasil, é considerado um animal sentinela porque, como mamífero e predador de primeira ordem, fica sujeito a doenças vinculadas a águas poluídas, disse Flach. Ele instou pela criação de uma área de conservação marinha para estudar e salvaguardar a baía.

O pescador Sérgio Hirochi, 49, que nasceu na área e é dono de três pequenos pesqueiros, disse ter testemunhado o declínio ambiental da baía, a partir da metade da década de 1990, quando a mineradora Ingá Mercantil operava na área. A empresa fechou em 1998, depois de ser investigada por despejar poluentes na baía, mas o desenvolvimento da região não parou. 

"Daqui, vejo quantos resíduos minerais vão parar no oceano", disse Hirochi, que vende os peixes que pesca em um armazém perto de sua casa à beira-mar. "A baía de Sepetiba é um estuário, um viveiro de espécies. E quando você a destrói, destrói a vida marinha".

Hiroshi disse que os pescadores estão recorrendo a redes maiores para apanhar camarões, sardinhas e robalos, espécies cuja presença está escasseando, e essa tática pode terminar resultando na captura inadvertida de golfinhos.

"Diversos pescadores estão tendo imensas dificuldades para alimentar suas famílias", ele disse.

Embora reconheça o impacto ambiental sobre a baía de Sepetiba, a prefeitura de Itaguaí, a maior cidade da região, aponta para os benefícios do desenvolvimento, como a construção de uma rodovia moderna e a abertura de terras para projetos imobiliários.

Max Sanches, gerente de um hotel, disse ter chegado à região em 2012, bem no meio do boom.

"A verdade é que os portos geraram desenvolvimento, emprego e investimentos", afirmou Sanches, que disse que seu hotel trabalhou muito para limitar e tratar suas descargas de resíduos. "Trabalhamos com o porto e com a beleza, e queremos que a baía seja boa para todos".

Mas Sanches tem um conselho para os hóspedes: "Sugerimos que eles não nadem nessa praia", ele disse. "O tratamento da água deveria ser melhor".
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

Fonte: FOLHA

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