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27 de janeiro de 2018 às 17:00

Vinho de verão não existe

Eles reaparecem nesta época, recebo todo dia uma sugestão de vinhos para o verão. Até parece que faz sentido, beber algo mais leve no calor. Mas os que fazem sua propaganda oferecem tintos, brancos, espumantes, de todos os estilos, sempre para beber na pi

Eles reaparecem nesta época, recebo todo dia uma sugestão de vinhos para o verão. Até parece que faz sentido, beber algo mais leve no calor. Mas os que fazem sua propaganda oferecem tintos, brancos, espumantes, de todos os estilos, sempre para beber na piscina. Ou seja, vinho do verão é o vinho que se quer vender. Aberração da época, o vinho do verão nunca existiu.

Vou explicar com calma. Quem esquenta e parece pesado ao corpo não é a cor ou o estilo da bebida, mas o seu teor alcóolico. Qual o drinque mais "refrescante"? Os coqueteis cítricos, como gim tônica e caipirinha, por exemplo? Eles dão uma sensação de matar a sede.

Gim tônica é uma das bebidas favoritas ao ar livre num dia muito quente, a tônica é efervescente, tem o limão acidinho. Mas, escondido ali naquele copo de alegria, está uma dose de gim. É bem fácil beber dois destes clássicos, descem feito água gelada, na hora é delicioso, depois, tendo consumido duas doses de um destilado com mais de 40 volumes de álcool, vem o sufoco.

Numa aritmética bem simples, dois gim tônicas equivalem a quase meia garrafa de vinho, mesmo de um vinho potente, com 15 volumes de álcool. E se leva mais tempo para beber o vinho que os drinques, o que faz o efeito do álcool ainda mais eficaz no gim.

E mais, vivemos num país mais quente que frio, chamamos as estações por seus nomes por tradição e para pontuar o calendário, verdadeiramente só temos calor e frio (falo de São Paulo, se considerar o Brasil todo há lugares em que é só calor mesmo). Se fizesse algum sentido beber os tais vinhos de verão, seriam eles que beberíamos o ano todo, uma mesmice que contraria o prazer de provar tantos vinhos disponíveis.

Há ainda outro ponto, continuamos comendo feijoada, moquecas, churrasco, frituras. Países quentes costumam ter comidas picantes, como a tailandesa, os pratos de mole no México. E os pratos paraenses, dentro daquele calor úmido de Belém, é maravilhoso tomar na rua uma cuia de tacacá. Não sou cientista, entendo experimentando que o alívio sudorento que vem depois de comer um ultrapicante curry indiano é como refresco. O efeito aquecedor de comidas e bebidas pode ser agradável no calor, e não o contrário.

Lembrei de um texto lido muito tempo atrás aqui na Folha (18 de outubro de 1986), de Wole Soyinka, em que ele descreve o hedonismo para os Iorubas em contraste com o do europeu de mesa farta. É no "sofrimento" da farinha de inhame cozida com muitas pimentas, na experiência de sufocação e estupor, comendo o prato, que encontram a alegria, não no chantili ou no foie. A coisa é tão apimentada que a respiração para por um instante, e depois o êxtase: naquele prato ritual "...o prazer está ligado à experiência do suor e do defluxo, através da pimenta, e à paralisia parcial do esôfago pelo calor". O prazer é o alívio de uma tensão, disse aquele sério médico vienense muito citado.

A bizarrice maior é o vinho de piscina. Eu não vou a piscinas, pertenço à velha estirpe definida pelo cartunista Jaguar: "Intelectual não vai à praia, intelectual bebe". E se fosse não beberia vinho, não é prático, nem ideal. Ali, naquela situação constrangedora, cheio de protetor solar, pego de sunga no meio de outras pessoas, igualmente atordoado pela luz do sol, a melhor coisa é uma cerveja em lata. Nada mais ridículo que ficar equilibrando flutes de espumante numa espreguiçadeira, sobre uma toalha molhada.

O ideal, um pouco sem graça, seria evitar álcool nos dias quentes, mas e quem só tem dias quentes? Como diz um amigo que gosta muito de vinhos e mora numa idílica praia do extremo Nordeste do país, "ar condicionado serve para isto, coloco no máximo e bebo Bordeaux no jantar".

A coluna "Volta & Mesa" é publicada semanalmente, na revista sãopaulo.

Fonte: FOLHA

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