11 de julho de 2018 às 02:29

Trocar cidade pelo campo impõe novo olhar sobre a vida e as pessoas

Sou do Vale do Paraíba, nascido em Cachoeira Paulista e criado na pequenina Silveiras, na Serra da Bocaina. De lá saí aos 17 anos e para lá voltei com minha esposa e filha há pouco mais de cinco anos, para a indignação de alguns colegas cozinheiros. Deixa

Sou do Vale do Paraíba, nascido em Cachoeira Paulista e criado na pequenina Silveiras, na Serra da Bocaina. De lá saí aos 17 anos e para lá voltei com minha esposa e filha há pouco mais de cinco anos, para a indignação de alguns colegas cozinheiros. Deixar a carreira ascendente de chef de cozinha e fazer sabe-se lá o que, sei lá onde, era demais para eles. Você está doido? Está num momento muito bom para se meter na roça!

Estava trabalhando em Belo Horizonte, vinha de duas temporadas como apresentador de um programa de TV e acabara de ganhar alguns dos principais prêmios de Beagá.

Silveiras fica a 222 km de São Paulo e tem uns 6.000 habitantes, pequenos produtores rurais em sua maioria. Na pequena fazenda da família, me dedico a criar porcos soltos, da raça crioula caruncho, já quase desaparecidos das comunidades tradicionais. Uma vida muito diferente da que têm chefs de restaurantes sofisticados. 

Vendemos leitões, embutidos, pães, conservas e laticínios que produzimos. Também garimpamos produtos no entorno e recebemos em casa grupos para aulas e vivências. Entre os luxos desse êxodo urbano está o fato de minha filha saber de onde vem a comida.

Diferentemente do cenário de 2013, quando me mudei para a Bocaina, o êxodo urbano hoje é um fenômeno relevante. Tenho acompanhado casos semelhantes ao meu. São quase sempre pessoas de até 40 anos buscando dar um sentido maior a sua existência, através de diversas frentes ligadas à Terra. 

Voltar me deu a oportunidade de me tornar um cozinheiro de fato, sem o aleijamento imposto à cozinha em um ambiente urbano. Os aspectos românticos que envolvem essa jornada de retorno à terra não se comparam aos ganhos na prática. 

Tenho em mãos milhos crioulos perfumados, leite fresco e gordo, ovos vivos, galinhas, porcos e vitela de uma qualidade fantástica, méis de mandaçaia, jataí e arapuá, cafés deliciosos, peixes fresquíssimos e azeites extraídos a oito quilômetros da fazenda. 

Tenho a alegria de resgatar técnicas tradicionais, participar da construção de monjolos, de conhecer velhos cadernos de receitas.

A vida no campo nos impõe um novo olhar sobre a vida e as pessoas, um olhar mais humilde, menos dominador. Quando as maritacas devoram uma roça inteira de milho, você se enxerga do tamanho que é e derruba sua ilusão de criatura dominante.

Nesse tempo confuso em que vivemos é necessário dar dois passos atrás para tomar um novo rumo. Não se trata de retroceder, mas de corrigir a rota para seguir adiante. Não proponho que as pessoas abandonem as cidades, mas que, de alguma forma, se reconectem com a Terra, porque não há maneira melhor de se reconectar consigo mesmas. 

Rafael Cardoso 
Cozinheiro, produtor rural  e proprietário do Curiango

Fonte: FOLHA

comentários

Estúdio Ao Vivo

sobre nós

A Rádio Diocesana AM, localizada na cidade da Campanha, Sul de Minas Gerais,  é uma emissora da Fundação Cultural  e Educacional Nossa Senhora do Carmo. Sua programação está pautada sobre os pilares da informação, da formação, da cultura e do entretenimento.


facebook

Streaming by: