10 de julho de 2018 às 02:00

Reinaldo Moraes volta aos excessos das noites sujas com 'Maior que o Mundo'

?Foi uma ideia que começou mesmo numa mesa de bar. Quem conta é o escritor paulistano Reinaldo Moraes que, entre um copo americano e outro, foi interpelado por um fã, o então estudante de cinema Roberto Marquez. 

?Foi uma ideia que começou mesmo numa mesa de bar. Quem conta é o escritor paulistano Reinaldo Moraes que, entre um copo americano e outro, foi interpelado por um fã, o então estudante de cinema Roberto Marquez. 

“Ele queria que eu escrevesse um roteiro de filme que tivesse a rua Augusta, puta e droga”, diz o autor de “Pornopopéia” e “Tanto Faz”. “Chutei para cima o valor. Ele topou.”

Seis anos depois, o lampejo etílico ganha forma num set de filmagens em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, que reproduz um apartamento no Baixo Augusta. As cores projetadas na janela criam a ilusão de que há néon lá fora. 

É ali que Marquez, 30, filma seu primeiro longa-metragem, “Maior que o Mundo”, com o roteiro de Moraes. 

Na trama, Eriberto Leão interpreta um escritor boêmio que surrupia um diário perdido, escrito pelo anão Altair, e o publica como se fosse uma obra sua. A cena a que Folha assiste tem Kbeto (Leão), 
encurralado por um gângster vivido pelo músico Otto.

O convite para elaborar a história do filme fez o escritor abandonar as 600 páginas de um romance “que tava ficando muito metafísico”. “Que ótimo”, pensou. “Vou poder voltar àquele mundo lúbrico.”

Moraes se entusiasmou tanto com o processo do roteiro que resolveu transformá-lo no seu próximo romance. 

O primeiro dos três volumes de “Maior que o Mundo” deve sair em setembro, pela Alfaguara. Mas o autor faz um alerta: “Todo escritor fica frustrado com adaptações. Só que desta vez, é o livro que vai trair o filme, e não o contrário.”

É que, do roteiro para o romance, ele resolveu mudar alguns detalhes. No livro, o protagonista está mais para um ex-doidão. “De um putanheiro, ele virou um ex-cocainômano que, assim como eu, se relaciona com um pessoal da metade da idade dele”, afirma.

Entre aqueles que puderam ler os rascunhos, a impressão é a de que há ali ecos de sua obra hoje mais conhecida. O amigo e jornalista Matthew Shirts, por exemplo, teria chamado o novo livro de um “?Pornopopéia?, agora com anões”. 

O próprio pai das criaturas também reconhece semelhanças, sobretudo no universo devasso de ambas as obras.

Em “Pornopopéia” (2009), tido como um dos maiores romances brasileiros dos últimos anos, Moraes conta a história de Zeca, cineasta que busca torpor químico e sexual enquanto São Paulo treme sob o rescaldo do apagão aéreo e dos ataques do PCC, em 2006.

“Foi um acerto de contas com um período meio maluco da minha vida”, conta o paulistano de 68 anos. Acerto extemporâneo. Quando fala do tal período maluco ele se refere aos excessos de um passado mais distante, já narrados no bukowskiano “Tanto Faz”, romance que se tornou cult no começo dos anos 1980. 

O cinquentão Kbeto de “Maior que o Mundo” não quer coisa muito diferente do que busca Zeca. E seu entorno tampouco é menos vibrante: é o da metrópole que convulsiona sob os protestos de 2013. “Eu queria esse recuo com o mundinho junkie e intelectual que continua na balada”, afirma Moraes.

No filme, o mundinho junkie e intelectual que continua na balada estará impresso em personagens como Mina, mulher algo hipster e algo gótica vivida por uma Luana Piovani de sobrancelhas descoloridas. 

A Popcon, que produz o longa de Marquez, anuncia que a obra homenageará o cinema marginal e o da Boca do Lixo â?”ambiente que o pernambucano Otto diz conhecer bem. “É o mundo em que vivo até hoje e que frequento há 20 anos, desde que cheguei em São Paulo. Me identifico.”

Por Boca do Lixo, ele e o diretor parecem se referir mais ao cenário de inferninhos e botecos sujos do Baixo Augusta do que, propriamente, ao polo cinematográfico paulistano que orbitou em torno da rua do Triunfo e produziu filmes em massa entre os anos 1960 e 1980.

“Vai ser uma Boca mais atual, talvez”, segundo Marquez, que se diz um admirador dos cineastas daquela geração. “Procurei, pelo universo da Augusta, me aproximar deles.”

Eriberto Leão, que mora no Rio há 16 anos, diz que espera resgatar sua “alma paulistana” ao protagonizar o filme. 

“Estou carioca, mas nunca serei um”, brinca o ator. Ele também vê no papel uma forma de retornar ao mundo da contracultura e de ídolos como William Blake e Jim Morrison. Em 2016, ele interpretou o vocalista do The Doors na peça musical “Jim”.

“Por acaso, você conhece alguma comédia brasileira que seja recheada de sexo, drogas e rock?n?roll?”, pergunta.

No pedestal, ao lado de Morrison, Blake, Hunter S. Thompson e irmãos Coen, ele põe o autor de “Pornopopéia”, lido “assim que foi publicado”.

Colega de elenco, Otto diz que ainda não leu o romance agora clássico. “Mas isso não quer dizer que eu não conheça Reinaldo Moraes da noite. Eu já devo ter visto ele por aí.”

Principais livros de Reinaldo Moraes

?Tanto Faz? e ?Abacaxi?
Romances dos anos 1980, foram reeditados em um volume (Companhia das Letras, 344 págs., R$ 32,90)e narram as peripécias de Ricardo de Mello. Em “Tanto Faz”, ele larga o emprego em São Paulo e vai para Paris com uma bolsa de estudos, mas quer mesmo é ser escritor. Em ?Abacaxi?, ele volta após um ano, prolongando antes a esbórnia por Nova York e pelo Rio

?Pornopopéia?
Livro mais conhecido de Moraes (Objetiva, 480 págs., R$ 69,90), conta a história de um ex-cineasta de um filme só que ganha a vida com vídeos institucionais e se entrega a uma jornada de excessos

?O Cheirinho do Amor?
A antologia (Alfaguara, 272 págs., RS 37,90) reúne ?crônicas safadas? â?”todas ligadas a sexo

Fonte: FOLHA

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