08 de julho de 2018 às 02:00

Referência em enoturismo, Bento Gonçalves (RS) surpreende com o circuito do rio das Antas

RENATA HELENA RODRIGUES

Uma névoa branca e densa encobre o horizonte, dissipando-se gradualmente até quase tocar o asfalto da estreita via. A estradinha que serpenteia por entre gramados pontuados por casas isoladas e árvores frutíferas carregadas –está na época de laranja e tangerina (bergamota por aqui)– corta o acidentado relevo de Bento Gonçalves, município gaúcho a 125 km de Porto Alegre.

É o ápice do inverno frio e úmido da Serra Gaúcha e, ao contrário da rota adotada pela maioria dos visitantes, a viagem não leva ao Vale dos Vinhedos, endereço de grifes como Miolo e Casa Valduga. Na BR-470, o veículo passa pela entrada do afamado vale e percorre mais 14 km além do acesso ao centro.

O destino é o vale do rio das Antas, passeio alternativo, mas também repleto de boas bebidas e comidas que honram a herança da imigração italiana. Essa porção da cidade abriga os distritos de São Valentim e Tuiuty, este último sede da segunda maior vinícola da região, a Salton.

Líder nacional na produção de espumantes, a marca de 108 anos ocupa um prédio amplo erguido no início dos anos 2000.

Funciona no edifício uma fábrica moderna, que, durante as visitas guiadas, pode ser vista de cima, a partir de passarelas. Das alturas, os turistas observam os enormes tanques de aço inox (são 330 no total, com capacidades que variam de 5.000 aos gigantes de 500 mil litros). "Essa diversidade revela muito sobre os nossos vinhos, que vão de lotes especiais a outros comerciais", explica Gregório Salton, da quarta geração da família e um dos enólogos da equipe.

Depois da linha de envase, com o vaivém de garrafas sendo preenchidas com vinho ou suco de uva, alguns lances de escada abaixo levam a ambientes mais silenciosos, com temperatura e umidade controladas. Na primeira cave, os barris de carvalho alinhados guardam bebidas como o Salton Talento, um divisor de águas no portfólio da empresa, que descansa 12 meses em contato com a madeira.

Diante do imóvel, pés de cabernet sauvignon crescem enfileirados para que os turistas passeiem entre as videiras. No inverno, porém, o cenário é diferente da imagem verdejante que está no imaginário dos forasteiros. Nessa época, as parreiras estão desfolhadas e adormecidas, reunindo forças para brotarem vistosas na primavera.

A paisagem bucólica é a mesma em outra vinícola, não muito longe dali. A familiar Cainelli, também no distrito de Tuiuty, propõe divertidos passeios aos vinhedos da propriedade a bordo de um tuc-tuc, como é chamado o trator adaptado que transporta a gente em bancos na carroceria.

Feita pelos próprios donos, os descendentes de imigrantes tiroleses Bete e Roberto Cainelli ao lado do filho, também Roberto, a recepção inclui tour pela centenária sede da empresa. Com robusta fundação de blocos de basalto (rocha comum na região), a casa exibe um acervo composto de móveis e objetos domésticos de outrora.

Na hora de degustar alguns dos oito rótulos da marca, o patriarca Roberto filosofa: "Para entender uma garrafa de vinho, não basta tirar a rolha". Ao lado da taça, não dispense a seleção de queijos e itens de salumeria da região.

Visitar vinícolas pequeninas é uma experiência traduzida no atendimento caloroso e, em alguns casos, pode significar a oportunidade de provar receitas de família. É o caso da Casa Postal, instalada no vizinho São Valentim -bem perto há uma cervejaria (sim, há outras bebidas fermentadas para experimentar aqui), a Sud Birrificio Artigianale, que oferece visita à fábrica.

Na Casa Postal, em operação desde 1956, quem está à frente da produção é Élison Postal. Da terceira geração do clã fundador, ele é responsável pelo início do cultivo biodinâmico das frutas. Diminuta, a produção rende no máximo 12 mil garrafas por ano e quase todas as bebidas são comercializadas diretamente na empresa.

Além de conhecer a área de fabricação e maturação dos vinhos, os turistas podem provar saborosas massas caseiras -o menu harmonizado, com entrada, prato e sobremesa ladeados por três rótulos, custa R$ 98.

Mais adiante pela BR-470, às margens do rio das Antas, há outra tradicional parada etílica: a cachaçaria Casa Bucco. Usando matéria-prima proveniente de canavial próprio, de cultivo orgânico, a marca produz 17 aguardentes (há envelhecidas e até bidestiladas). Sob a batuta de Moacir Menegotto e do filho Matheus, a linha abarca licores e grapa, feita com casca de uva.

Os visitantes podem conhecer a fornalha alimentada com lenha para a destilação, a sala que alinha barris de diversas madeiras, fazer compras e tirar boas fotos. A paisagem enquadra o rio das Antas no trecho atravessado pela ponte Ernesto Dornelles.

Fortalecendo-se para o turismo, a região vem ganhando atrações. Aberto no último mês de 2017, o haras Recanto do Gaúcho é tocado por Michel Contini, a irmã Vanessa e o cunhado Alexandre Bassani, que deram novo uso à propriedade da família. Eles oferecem passeios a cavalo (R$ 30; 40 minutos) e um farto café colonial (R$ 29,90 por pessoa), que inclui a típica polenta brustolada, dourada na chapa. No inverno, a neblina e o friozinho são combatidos com lareira e chimarrão. Trilegal.

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VOCÊ SABIA?

95% das garrafas da Casa Postal são vendidas na vinícola

1900: estima-se que seja o ano em que foi erguida a sede da Cainelli

12ºC é a temperatura na cave que abriga os barris da Salton

40 galinhas-d'angola espantam insetos do canavial orgânico da Casa Bucco

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VALE A PENA CONHECER

Casa Bucco
BR-470, km 194,3, Tuiuty, tel. (54) 99129-1586

Casa Postal
Estr. Buarque de Macedo, s/nº, São Valentim, tel. (54) 3458-1233

Recanto do Gaúcho
Linha Marsisa, 173 (a 500 m da Salton), Tuiuty, tel. (54) 99609-4785

Salton
R. Mario Salton, 300, Tuiuty, tel. (54) 2105-1000

Vinícola Cainelli
BR-470, km 203, Tuiuty, tel (54) 3458-1441

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SERVIÇO

Villa Tuiuty
Confortáveis chalés, todos com decoração rústica e lareira, ficam espalhados pela arborizada propriedade da família de Sônia e Roberto Da Ré, que residem no local e recepcionam os hóspedes.


BR-470, acesso pelo km 204, Tuiuty, tel. (54) 3458-1720. Diárias para o casal vão de R$ 280 a R$ 680 com café da manhã.

Tour
Passeios por vinícolas e pela região, com preços que variam de R$ 15 a R$ 80 por pessoa.


Giordani Turismo, tel. (54) 3455-2788


Vale das Vinhas, tel. (54) 8422-7129

Fonte: FOLHA

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