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13 de janeiro de 2018 às 11:16

O Mundo é Uma Bola: 47 a 0: humilhação ou aprendizado?

Um pouco antes do Natal, a mídia espanhola destacou uma partida de um campeonato das categorias de base, para garotos de 10 e 11 anos, no qual um time derrotou seu adversário por ampla margem de gols. Eis os títulos de alguns jornais de Madri, a capital d

Um pouco antes do Natal, a mídia espanhola destacou uma partida de um campeonato das categorias de base, para garotos de 10 e 11 anos, no qual um time derrotou seu adversário por ampla margem de gols.

Eis os títulos de alguns jornais de Madri, a capital da Espanha:

“Las Palmas atropelou o Las Coloradas na categoria sub-11: 47 a 0!” (“El País”)

“Indignação no futebol de base pelo 47 a 0 do sub-11 do Las Palmas” (“Marca”)

“Críticas ao sub-11 do Las Palmas por ganhar de 47 a 0 de um rival” (“20 minutos”)

Quarenta e sete gols para um time, nenhum para o outro. Goleadas não são uma anomalia no futebol, mas uma por 47 a 0 é atípica, se não for inédita.

Em comum nas reportagens, o relato de que o resultado provocou indignação nas redes sociais, levando a uma discussão acerca do seguinte tema: humilhação.

“Os pequenos aprendem humilhando os outros? Os que perdem desse jeito acabarão por odiar o esporte?”, questionou Jesús Izquierdo em seu texto no “Marca”, um dos principais jornais esportivos espanhóis.

Las Palmas B 47-0 Las Coloradas, el fútbol canario se pregunta si está bien diseñado su fútbol base https://t.co/qpKyqPJgwK

â?” MARCA (@marca) 16 de dezembro de 2017

“A goleada do conjunto amarelo reabriu o debate sobre se devem ser permitidos resultados tão exagerados nas categorias inferiores”, escreveu Jordi Tió no diário “El Periódico”, de Barcelona. Ele prosseguiu: “Uma diferença escandalosa que, segundo treinadores e educadores, é prejudicial para as crianças”.

Será mesmo prejudicial? Os que ganham por uma diferença escorchante se tornarão adolescentes piores? Os do lado dos derrotados passarão a ter aversão ao futebol?

Na minha opinião, isso é puramente interpretativo.

Ilustro com um caso pessoal. Quando eu tinha 11 anos, entrei em um novo colégio.

Formado o time de futsal para disputar o campeonato interclasses (eram cinco turmas na então quinta série do ensino fundamental), novato que era, acabei sendo destacado para ser o goleiro.

Ninguém queria “pegar no gol”, nem eu, mas, para me enturmar e cavar um lugar na equipe, era o que restava, e decidi encarar mesmo me considerando no máximo médio sob as traves.

No primeiro jogo, sucesso. Vitória por 3 a 1 da 5ª Turma sobre a 1ª Turma e ótima atuação do arqueiro calouro – duas defesas difíceis, em lances “cara a cara”, deram-me fama.

Uma fama fugaz. Na semana seguinte, diante da 2ª Turma, pouco vimos a bola. Fomos dominados e, em 15 a 20 minutos de jogo (as disputas eram no curto horário do recreio), perdemos por 6 a 2.

Levei gol de tudo que era jeito, até entre as pernas, em bola fácil de defender. A meia dúzia pareceu o dobro.

Senti-me muito mal, com a autoestima lá embaixo. Direcionei-me ao banheiro ao lado da quadra, onde chorei por vários minutos.

Incutiu-se em mim o sentimento de culpa pela derrota. Na minha cabeça, não só os cinco do time, mas toda minha turma (eram 44) tinha sido humilhada por minha falta de capacidade para impedir um gol atrás do outro.

Havia rivalidade entre as classes, e ninguém queria ser alvo de possível gozação. Mas nesse caso a humilhação estava só no meu íntimo. Pois não me lembro de ninguém da 2ª Turma tirando sarro depois da goleada.

Colegas de classe vieram até mim, me ampararam e deram força. Enfim, engoli a frustração, levantei a cabeça e segui adiante. O abalo foi momentâneo.

Continuei no gol naquele torneio e, se minha memória não falha, empatamos por 3 a 3 com a 3ª Turma e ganhamos com folga (4 a 1) da 4ª Turma. Uma participação insuficiente para o título, mas digna.

Voltando ao 47 a 0 registrado na Espanha (24 a 0 no primeiro tempo), a garotada do Las Palmas (clube muito forte na base, porém medíocre no profissional) foi criticada por não ter tirado o pé.

Em um jogo de 70 minutos, não teve dó de atropelar um adversário tecnicamente muitíssimo inferior, cujos jogadores, pressionados incessantemente, não conseguiam, de acordo com os relatos, trocar mais de um passe entre si.

As reportagens acerca do acontecimento não trouxeram vencedores tripudiando nem vencidos se lamentando.

Ou seja, somente com as opiniões de algumas pessoas nas redes sociais, mais o lamento do treinador derrotado (“Era doloroso ver o rosto dos garotos, alguns não queriam continuar”, declarou Yon Oses ao “Periódico”), não há embasamento para afirmar que há consenso referente a uma humilhação.

Para mim, não foi. Prefiro utilizar outra palavra, focalizando o lado dos derrotados: aprendizado.

Das grandes quedas podem ser tiradas lições igualmente grandes.

Não é vergonha perder de muito, desde que a experiência desse revés seja produtiva.

A derrota dói, sim, e é mais doída é quanto mais elástica for – vide o 7 a 1 do Brasil para a Alemanha na Copa de 2014.

Naquele momento de dor dos meninos do Las Coloradas caberia aos tutores (pais e comissão técnica) se unirem e, na base da conversa, mostrar a eles que não é o fim do mundo.

Mostrar a eles que ninguém é melhor do que ninguém como ser humano, apenas que do outro lado havia um time mais preparado.

E mostrar que a vida é feita de desafios. De buscar progresso onde não se está tão bem.

Para, da próxima vez, perder de menos. E, da seguinte, de menos ainda. Reduzir paulatinamente a desigualdade. Para um dia poder empatar e, posteriormente, vencer.

Com suor e dedicação, com bom treinamento, para que as potencialidades aflorem, isso é atingível.

Na teoria, essa é a fórmula. Na prática, é preciso querer. Querer ensinar (o treinador), querer aprender (os jogadores), querer mudar a situação atual (ambos).

Querer evoluir vale para todos, e não vale só para o futebol. Vale para tudo na vida. Que nada mais é que um aprendizado diário.

Leia também: Goleada do São Paulo é a maior da Libertadores desde a do Santos em 2012

Em tempo: No futebol mundial, a maior goleada de que se tem conhecimento é um 149 a 0, resultado incluído no “Guinness Book”, o livro dos recordes. Ocorreu em outubro de 2002, com dois times de Madagáscar, na África. E o contexto foi bizarro. Em protesto contra decisões anteriores da arbitragem, os jogadores do Stade Olympique L’Emyrne, então campeão nacional, balançaram 149 vezes as redes do próprio gol – 149 gols contra. A equipe adversária, o Adema, não tocou uma única vez na bola.

Fonte: FOLHA

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