04 de janeiro de 2018 às 02:00

Dentro e fora das igrejas, novos ritmos revitalizam o Pelourinho

Nem tudo são tambores no Pelourinho. Concertos de jazz na igreja de São Francisco, almoço com intervenções artísticas e um musical inspirado em livros de Jorge Amado são algumas das atrações que compõem o Pelourinho Dia e Noite, série de ações culturais g

Nem tudo são tambores no Pelourinho. Concertos de jazz na igreja de São Francisco, almoço com intervenções artísticas e um musical inspirado em livros de Jorge Amado são algumas das atrações que compõem o Pelourinho Dia e Noite, série de ações culturais gratuitas no centro histórico.

A programação teve início em outubro, coordenada pela Secult (Secretaria de Cultura e Turismo de Salvador) e organiza as manifestações culturais que ocorrem em praças, ruas e igrejas do lugar em um calendário comum, além de incluir novidades no cardápio de atrativos soteropolitanos.

"Queremos mobilizar os baianos e estimular mais iniciativas e investidores para a região, que é um celeiro cultural", diz Eliana Pedroso, diretora de gestão do centro histórico da Secult.

"Já tivemos ações parecidas, mas sem continuidade", diz David Costa, dono do hostel Hospeda Salvador e diretor social da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Bahia. "Agora, sentimos a iniciativa privada mais próxima do governo, acredito que o Pelourinho vai melhorar."

Segundo Pedroso, o calendário de atividades será ajustado de acordo com o fluxo de visitantes e condições climáticas após o mês de maio.

O circuito Jorge Amado, musical de rua realizado nas noites de sexta, é um dos destaques da programação.

Na performance, um grupo de atores, cantores e bailarinos percorre o largo do Pelourinho encenando trechos de obras do escritor como "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água", "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e "Gabriela Cravo e Canela".

O público, que inclui crianças, turistas estrangeiros e moradores de rua, acompanha o cortejo por cerca de duas horas, como em um bloco de carnaval. As canções que embalam as cenas, originais, são do cantor e compositor baiano Gerônimo Santana.

As apresentações com tambores envolvem quem frequenta o largo do Pelourinho. Quatro grupos de batuqueiros se revezam de quarta a domingo, sempre à tarde: Banda Didá, Kizumba, Tambores e Cores e Meninos da Rocinha do Pelô.

A programação se estende às igrejas da capital baiana, que servem de palco para orquestras e grupos musicais.

Um deles é o Sanbone Pagode Orquestra, que lotou os cerca de 150 lugares da Igreja e Convento de São Francisco em 19 de novembro, quando a Folha esteve no local. No repertório, música popular brasileira e jazz.

A construção barroca, concluída no século 18 e ornada com 800 quilos de ouro, é considerada uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo. O título foi concedido em 2009 pelos ministérios da Educação e da Cultura de Portugal.

A professora Zoraide Azevedo, 82, nascida em Salvador, tem aproveitado os fins de semana para ver as orquestras no Pelourinho –as igrejas da Misericórdia, do Boqueirão, de São Domingos e de Nossa Senhora do Carmo participam do circuito. "Estou satisfeita com o movimento que tem sido feito em relação à cultura", diz. "O Pelourinho começou a ressurgir das cinzas."

A partir de janeiro, os concertos serão realizados do lado de fora das igrejas, ao ar livre. "Será um contraponto às músicas de carnaval, mostrando a nossa diversidade musical", diz Pedroso.

Atrair os soteropolitanos para o centro histórico é um dos principais objetivos da prefeitura. "Ainda existe um preconceito com a área", observa a diretora da Secult.

No cardápio de atrações do Pelourinho Dia e Noite, há ainda concursos fotográficos para jovens, cinema ao ar livre, shows de samba e intervenções artísticas em restaurantes do centro histórico (programação em pelourinhodiaenoite.salvador.ba.gov.br ). As ações serão retomadas na segunda semana de janeiro e vão até maio.

DESAFIOS

Quem vai viajar para o Pelourinho muito provavelmente escutará um alerta de "cuidado com assaltos" de amigos ou familiares.

Combater furtos e lidar com os dependentes químicos do lugar ainda são desafios a ser enfrentados pelo governo. "Está longe de ser um lugar perfeito, mas a ideia que se construiu da insegurança no lugar é maior do que a insegurança propriamente dita", diz Pedroso.

De acordo com ela, foi realizado um mapeamento com as fragilidades da região no início do ano passado –locais pouco iluminados ou com grande quantidade de roubos, por exemplo.

A partir disso, houve um remanejamento dos agentes de segurança que atuam no Pelourinho. As polícias Militar e Civil (por meio da Delegacia do Turista) e a Guarda Municipal são responsáveis pela vigilância da área.

O atendimento a dependentes químicos, por sua vez, é realizado por meio de instituições de assistência presentes na área.

Durante os três dias em que a reportagem passou no lugar, a sensação era de tranquilidade nas ruas, de dia e à noite. Não foram testemunhados roubos ou furtos.

"A segurança não é ruim, mas pode melhorar, principalmente em alguns trechos fora do miolo", afirma Costa, da Abih. "Falta um policiamento mais ostensivo."

*

Há muitos lugares charmosos em Salvador para além das ladeiras do Pelourinho, de museu a espaço com jazz ao pôr do sol.

A Casa do Rio Vermelho, onde Jorge Amado (1912-2001) viveu por quase 40 anos, é um dos principais atrativos da cidade.

Aberto ao público em novembro de 2014, o museu abriga itens pessoais do escritor, como camisetas coloridas, lembranças de viagens, livros e cartas trocadas com personalidades (Yoko Ono, Monteiro Lobato e Érico Veríssimo estão entre eles).

É lá também que estão as cinzas de Amado e de sua mulher, a escritora e fotógrafa Zélia Gattai (1916-2008), cercadas por árvores e muitos sapos decorativos, um dos animais preferidos do escritor. O local abre de terça a domingo, das 10h às 17h. A entrada custa R$ 20 (às quartas, é gratuita).

O bairro de Santo Antônio Além do Carmo, separado do Pelourinho por uma ladeira, é outro ponto que vale uma visita.

Com bistrôs, ateliês de arte e pousadas em casas coloniais coloridas, muitas delas com uma bela vista para a capital baiana, atrai visitantes em busca de tranquilidade, boa comida e fotos descoladas para o Instagram (principalmente em frente aos grafites que ocupam algumas paredes do bairro).

O lugar, com uma atmosfera mais residencial, também é conhecido por ser reduto de artistas, músicos, artesãos e estrangeiros. Um cantinho hipster em Salvador.

Os turistas mais descolados também podem admirar (e aplaudir) o pôr do sol ao som de grupos de jazz no Solar do Unhão, construção do século 16 que abriga o Museu de Arte Moderna da cidade, a cerca de quatro quilômetros do Pelourinho. O "Jam no MAM" é realizado aos sábados, das 18h às 21h. A entrada custa R$ 8.

E, claro, bons restaurantes não faltam em Salvador. O Casa de Tereza, no bairro Rio Vermelho, da chef Tereza Paim, decorado com obras de artistas plásticos, oferece opções deliciosas de pratos típicos baianos.

O mix de camarões, bolinhos de moqueca e de carne seca, telhinhas de beiju e outros petiscos, uma das entradas mais pedidas, custa R$ 78. Bobó de camarão e moquecas custam entre R$ 100 e R$ 150. Oferecem ainda um "menu experiência" para duas pessoas, com entrada, prato principal e sobremesa por R$ 300.

No Pelourinho, é possível encontrar rangos mais em conta. No restaurante do Senac, o cliente paga R$ 55 e pode aproveitar o buffet livre com mais de 40 opções de receitas baianas. A comida não é espetacular, mas a variedade compensa.

Os restaurantes Villa Bahia, Cuco Bistrô e Maria Mata Mouro, um pouco mais sofisticados, são outras boas opções no centro histórico.

A jornalista viajou a convite da prefeitura de Salvador e da Salvador Destination, associação de empresas da região

Fonte: FOLHA

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